23 de nov de 2007

Dúvidas Docentes Recentes - Estaremos ainda vivenciando a Educação Bancária nas escolas?

Estaremos ainda vivendo o contexto da educação bancária nas escolas?

Recentemente li um artigo do jornalista Gilberto Dimenstein pela Folha de São Paulo, no caderno Educação, e discuti com alguns professores minhas docentes dúvidas recentes.
Não sei se a educação bancária tem sido superada, talvez esteja sendo por esforço de uns poucos professores realmente comprometidos com as abordagens que favoreçam a aprendizagem. No entanto, nos processos seletivos das universidades, pelo afã de se democratizar a educação superior, o acesso à mesma se torna facilitado demais.
Observo esta tendência sobretudo nas universidades privadas: mais matrículas, mensalidades e propaganda boca-a-boca de que tal universidade é boa pois não precisa de se estudar muito para entrar nela. Lastimável: substituíram o conceito de boa educação e ensino. Nem podemos crer na educação bancária, nem também podemos crer numa educação que valorize a experiência do indivíduo, posto que o indivíduo da ação educativa não deseja aprender para ser um profissional competente dentro de sua àrea.
Eu gostaria realmente de saber qual a visão crítica que alguns docentes querem desenvolver ou estimular. Seria a de que os alunos devem protestar e aderir à greve dos professores? Ou a reflexão crítica de se apontar os erros e acertos de cada governo? Seria essa a visão crítica do cotidiano do educando?
O curioso é que em tese não vejo tantas modificações no Ensino Fundamental e Médio desde meus tempos de escola - na teoria tudo!!! Na prática quase nada!!! Não entendo como os professores podem inovar suas técnicas pedagógicas se seus próprios dirigentes os proíbem ou impedem de desenvolver uma ou outra atividade que não esteja prevista nos conteúdos programáticos ou na doutrina (política, religiosa ou social ) da escola.

Eu, particularmente, vou seguindo os passos de Freire - "Educar exige criticidade, mas com bom senso, diálogo, respeito a autonomia de ser dos educandos e reflexão crítica sobre a prática". Todavia, apesar de meu "otimismo pedagógico" devo preparar o aluno para os desafios de um mundo capitalista, onde não se tem liberdade de escolha, ofertas de carreiras promissoras e discussão profícua de suas idéias ou convicções. Desta forma, tento conciliar o bancarismo e a libertação como forma de prepará-los para as reais necessidades destes educandos.

No entanto, resta-me uma esperança de que tudo o que aprendi a amar na educação não se dilua. É a certeza de que a educação brasileira, mesmo com uns poucos praticando à liberdade, vai assumindo uma postura íntegra, democrática de fato e não só no discurso vazio de uma propaganda pobre do PDE ou dos alardeios de que agora a educação é para todos, pois nem todos querem de fato estudar.
Abraços
Semíramis Alencar
msn: semiramisalencar@hotmail.com
21)8237-0441 - consultorias e palestras

22 de nov de 2007

A Educação Superior Durante a Era Vargas


O papel do professor desde a antiguidade até os dias atuais se deu no sentido de aproximar o alunado do conhecimento para a vida.

No entanto, em certas fases da história, sobretudo nos períodos ditatoriais, há um desvio de sua atuação, fazendo-o ser um mero repassador de conhecimentos, contrário à função primeira do ato educativo: a de provocar a visão crítica.
A pedagogia do medo dominou durante várias gerações as classes escolares no Brasil e na América Latina como um todo.
Este sistema repressor e punitivo se originou através de governos ditatoriais ao longo da história mundial, intensificando-se à partir do século XX.
Observa-se durante a Era Vargas, a exaltação do nacionalismo e a falsa idéia de progresso como chaves para manter a população no obscurantismo e no medo.
Como a educação está intimamente ligada ao processo político, ela se torna refém manipulável, objeto de repressão e inculcação de valores autoritários.
No entanto, o Ensino Superior recebe um enfoque maior, quer em sua reestruturação, quer em sua maior acessibilidade. Este período marca o início das universidades públicas e a forma como a vemos hoje.


O Movimento Escola Nova e as Escolas Totalitárias.

A educação do período de 1924 à 1950, é marcado pelo movimento da Escola Nova, classificado como o período do “otimismo pedagógico”.
A origem da universidade pública é decorrente deste ideal: educar para a liberdade, no sentido de possibilitar a autogestão do educando e a construção da sociedade democrática.
Os escolanovistas pretendiam revolucionar o ensino brasileiro visando o fim da educação tradicionalista. Uma de suas requisições era a concepção de uma escola pública, laica e para todos os segmentos da sociedade.
Dentre os pensadores da Escola Nova está o filósofo Anísio Teixeira (1900-1971), cuja atuação se estende até o início dos anos 60, em defesa da universidade pública.
No entanto, surge a reação dos conservadores, que se opõem à política de laicização da escola pública. Os representantes da ala católica se expressam através da revista Ordem, e posteriormente pela Liga Eleitoral Católica – mais uma vez a educação se encontra no viés político.


O Populismo e a Cultura do Silêncio.

No contexto latino americano, o período entre guerras é marcado pelo populismo. O governo de Getúlio Vargas é centralizado e ditatorial, influenciado pelo nazismo e fascismo.
Ambíguo, o governo populista reconhece os anseios populares e cede a algumas pressões, no entanto, desenvolve uma política de massa procurando manipular e dirigir estas aspirações.
O totalitarismo de direita faz a crítica ao comunismo e ao caráter individualista do liberalismo. Despreza a democracia e valoriza, o papel do mais forte, da elite dirigente.A educação assume papel privilegiado de controle e difusão da ideologia oficial.


Reforma Universitária – Novos Rumos da Educação Superior no Brasil.

Com a reforma educacional de Francisco Campos, um novo ânimo pairou sobre a educação brasileira na década de 30. Este período foi de suma importância para a criação e regulamentação das universidades.
A primeira universidade que consegue se formar com espírito organizacional acadêmico é a Universidade de São Paulo, em 1934. A Universidade do Distrito Federal, no Rio de Janeiro, é criada em 1935, graças ao esforço de Anísio Teixeira.
No entanto, a universidade brasileira ainda não possui um quadro docente comprometido com a realidade do país. Em ambas universidades, a cátedra é formada, em sua grande parte, por docentes estrangeiros.
Cabe ressaltar a importância destas estruturações num momento populista, de severa observância ideológica. Apenas em 1937, são graduados os primeiros professores secundaristas. Egressos da faculdade de filosofia, além do encargo da preparação cultural e cientifica, receberam por acréscimo a formação pedagógica. Era o fim do ensino autodidata, exercido por profissionais de outras áreas.
Anísio Teixeira analisa nossa tradição acadêmica: “O Brasil tem experiência em universidade escolástica e, depois, da universidade reformada por Pombal. Esta já era a universidade clássica, em seus reflexos do iluminismo, mas não a universidade de ciência experimental. Fora disso, tínhamos a vivência do ensino profissionalizante para o clero, os legistas e os médicos”.
Observa-se, portanto, que a universidade no Brasil até a década de 30, era nada mais do que um curso profissionalizante carecia de uma formação acadêmica voltada a pesquisa à extensão.
Entretanto, para que a universidade se comprometa mais com os setores de pesquisa e extensão será necessário que ela além de reformular a cultura que vai ensinar, ela abra espaço para a discussão democrática não se atendo aos processos totalitários e excludentes, quer seja dos governos ou das instituições de ensino.
Neste sentido, o papel do docente superior, que na década de 30 era o de impulsionador da universidade aberta para todos, hoje se faz necessário como propagador da cultura e das relações entre sociedade e universidade, o que nem sempre é encontrado devido à divergências político-ideológicas dos próprios interesses docentes ao invés da preocupação pioneira daqueles que queriam educar para todos, num sistema igualitário de cidadania.

BIBLIOGRAFIA

SAVIANI, Dermeval. História das Idéias Pedagógicas no Brasil. Ed Autores Associados, 2007
BARSA. Enciclopédia, Volumes VI e VII. Editora Barsa Planeta, 2005.
ARANHA, Maria Lúcia de Arruda. História da Educação. 2ª ed., São Paulo, Ed. Moderna, 2002.
GOERGEN, Pedro. Universidade e Responsabilidade Social. Temas de Pesquisa em Educação / José Claudinei Lombardi (org.) Campinas, SP: Autores Associados, 2003; HISTEDBR; Caçador , SC:UNC, 2003 (Coleção Educação Contemporânea).
TEIXEIRA, Anísio. A Universidade de Ontem e de Hoje. Rio de Janeiro, ed.UERJ, 1998.

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