8 de jan. de 2011

Aprendendo o sentido da crítica no sistema acadêmico

Aprendendo o sentido da crítica no sistema acadêmico

 Profª Semíramis Franciscato Alencar Moreira

 

Popularmente a crítica está associada a uma prática depreciativa sobre determinado tema. Porém, se analisado do ponto de vista epistemológico, a crítica vem a ser uma análise minuciosa de um determinado assunto, sob uma discussão desapaixonada por qualquer teoria ou visão pessoal.

Antes, com Bacon e Descartes havia a preocupação com as ilusões da consciência e da importância do método para evitá-las. Bacon busca a experimentação pela natureza, enquanto que Descartes encontrava nos critérios de certeza, a subjetividade e o racionalismo subjetivista.

Depois da reforma e contra-reforma e a perda de crédito da ciência antiga devido às revoluções científicas, o ser humano passa a ser a única autoridade digna de crédito.

 Com Kant, seguindo os passos empiristas, elabora o próprio conceito de crítica com o "Tribunal da Razão". O sujeito transcendental de Kant, em que na radicalização da crítica, o indivíduo se torna o ponto de partida da crítica, aquele que julga e avalia as pretensões do conhecimento e que decide sua legitimidade.

Hegel, assim como Kant, pretendeu radicalizar a concepção de crítica dos empiristas e dos racionalistas, na busca de superar a oposição entre ambos e estabelecer algo mais fundamantal do que o "cogito" de Descartes ou a experiência de Bacon.

 Assim, Hegel percebe que só através de uma consideração da história, da marcha do "Espírito" para o "Absoluto" e a liberdade podem de fato, tornar a filosofia crítica, radicalmente crítica.

Assim, ele rompe com privilégio da individualidade e da subjetividade:

Hegel mostra, por meio da historicidade da consciência individual, que isso é impossível, sendo pura ingenuidade tentar considerar o indivíduo como desvinculado de da tradição, da cultura e da sociedade a que inevitavelmente pertence. "Toda consciência é a consciência de seu tempo"(in; MARCONDES, 2000:228).

A crítica deveria supor a visão do próprio processo de formação da consciência, a interpretação do sentido da história que, olhando para o passado, pode compreender o presente como resultado desse processo e assim ver o futuro, apreendendo a totalidade.

A análise crítica visa entender e repassar o todo percebido implicitamente, destrinchando  cada aspecto em  diversas nuances, de maneira que, ao ser lido, o leitor possa perceber suas próprias convicções sem ser influenciado pelo ideário do autor.

Enquanto docentes e acadêmicos, a crítica pode ser encarada como a definição de Freire sobre autoritarismo e autoridade, uma vez que a crítica confere caráter discriminatório ao mesmo tempo em que também pode ser apresentada sob um aspecto classificatório. É o cuidado que se deve ter para que não haja controvérsias no momento de se avaliar ou enquanto se está sob avaliação:

 "É uma contradição proclamar uma opção progressista e ter uma prática autoritária ou espontaneista. A opção progressista demanda uma prática democrática, em que a autoridade jamais se alonga em autoritarismo, mas que, por sua vez, jamais se amofina no clima irresponsável da licenciosidade" (FREIRE, in BARRETO 1998:67).

 

Entretanto, a crítica se apóia subjetivamente em algum discurso ideológico, mesmo que seja em prol da reconstrução desta ideologia.

Esse caráter crítico, se analisado no âmbito do ensino superior, encontrará base nas palavras do educador Paulo Freire (1996:27) ao mencionar que:

 

"Ensinar exige reconhecer que a educação é ideológica. Saber igualmente fundamental à prática educativa do professor ou da professora é o que diz respeito à força, às vezes maior do que pensamos da ideologia(...). É que a ideologia tem que ver diretamente com a ocultação da verdade dos fatos, com o uso da linguagem para penumbrar ou opacizar a realidade ao mesmo tempo em que nos torna "míopes"".

 

 

Este trabalho de reinterpretação  visa retratar o silencio, o inconsciente coletivo e a revelação de uma obra de pensamento, ou seja, um pensamento original. Volta-se a questão: o que é a verdade? Será que o silêncio que é guardado de fato "grita" ao outro explicitamente o que o autor repassa como a realidade daquele contexto?

Até onde esta crítica poderia estar de fato separada do contexto ideológico defendido pelo autor? o que pode ser realmente mensurado cientificamente pelos critérios de verdade? A verdade não seria algo objetivo, coisa única e intransponível?

 Daí a necessidade de se analisar criteriosamente o pensamento de cada indivíduo, que burilado transpõe suas questões expondo seus pontos de vista em prol de um consenso, ainda que temporário passível de novos olhares, novas perspectivas.

Portanto, cabe à analise crítica o cuidado para não cair no vazio da plena depreciação deste ou daquele tema ou da analise técnica simplista e minimalista que reduz a produção acadêmica a um achismo estreito e desprovido de perspectiva.

Desta forma, o trabalho da crítica é realizar um trabalho de interpretação com relação à pensamentos e discursos dados, para explicitar o implícito ou ser a voz do silêncio, abrindo novas correntes de pensamento. 

  

 

REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

 

BARRETO. Vera. Paulo Freire para educadores São Paulo: Arte & CiÍncia, 1998.

 

CHAUÍ. Marilena  O Trabalho da Crítica do Pensamento. In; HUMME. Leda Miranda(org) Metodologia Científica. Caderno de Textos e Técnicas. Rio de Janeiro, Agir, 2000.

 

FREIRE. Paulo. Pedagogia da Autonomia – Saberes necessários à prática educativa. São Paulo, Paz e Terra, 1996.

 

MARCONDES. Danilo. Iniciação à História da Filosofia – dos Pré-socráticos à Wittgenstein. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editora, 2000. 

 

 

Artigo escrito em junho de 2006 -

O juízo moral na criança e ensino superior - uma analogia docente

O juízo moral na criança e ensino superior – uma analogia docente


Profª Semíramis Franciscato Alencar Moreira


O jogo de regras é para Jean Piaget uma condição fundamental para a atividade humana.
Os jogos coletivos de regras são paradigmáticos para a moralidade humana pois apresentam uma atividade interindividual necessariamente regulada por algumas normas que, embora herdadas por gerações anteriores, podem ser modificadas pelos membros de cada grupo de jogadores, o que os constitui de certa forma, “legisladores” de cada um deles.

Piaget diz que: “Toda moral consiste num sistema de regras e a essência de toda moralidade deve ser procurada no respeito que o indivíduo adquire por essas regras”.

Embora essas normas não tenham um caráter moral em si, o respeito é a moral (os parâmetros de justiça e honestidade). Assim, o respeito provém de mútuos acordos entre os participantes do jogo e não da aceitação de regras impostas por autoridades estranhas a este grupo.
Num jogo de bolinhas de gude, pode-se observar a prática e a consciência da regra em cada indivíduo. Piaget pede num primeiro momento, que um menino o ensinasse a jogar e se punha a jogar com ele. Depois o perguntou de onde vinham essas regras, quem as havia determinado, se as regras poderiam ser modificadas, etc.
A evolução da prática e da consciência da regra pode ser dividida em três etapas. A primeira é a fase da anomia, a ausência total de regras, entre os 5, 6 anos de idade as crianças não seguem regras coletivas. Interessam-se pelos jogos para satisfazerem seus interesses motores ou fantasias simbólicas, e não para participar de uma atividade coletiva. As crianças podem estar em grupo, realizando uma mesma tarefa, mas estão agindo individualmente.
A Segunda etapa é a heteronomia, que abrange indivíduos de 9, 10 anos. Nesta fase, o surge no indivíduo o desejo de participar das atividades coletivas e regradas. Estes indivíduos não concebem as regras como um contrato firmado entre os jogadores, mas como uma lei, imutável, concebida e mantida pela tradição. Não concebem a si próprios como legisladores.
A terceira e última etapa é a da autonomia. Com características opostas às da fase heterônoma, esta fase representa a concepção adulta do jogo. Na autonomia, ocorre a plena maturação das regras do jogo. A criança já se concebe como possível legislador, capaz de criar novas regras que serão submetidas à aceitação ou a rejeição dos outros. Deste modo, a autonomia na prática da regra aparece mais cedo do que a revelada pela consciência da mesma.
Para cada uma dessas etapas devemos considerar as idéias de Henri Wallon, no que concerne às três dimensões do desenvolvimento humano: a afetividade, a linguagem, o movimento para a construção da personalidade.

Estes três fatores incidem drasticamente na formação interior do indivíduo e suas relações com os conjuntos de normas ditadas por diversos grupos. São constantes os casos de indivíduos ou grupos de indivíduos que se rebelam contra ordens pré-estabelecidas socialmente.
No estágio categorial do indivíduo por volta dos 6 anos, sob a concepção walloniana, o indivíduo volta sua atenção para o aprendizado e o conhecimento do mundo, este mesmo impulso se dá na adolescência, mas desta vez sob um impulso maior de uma gama de emotividade e questionamentos que provocam conflitos e o desejo de modificar as regras.

A professora Izabel Galvão, analisa este princípio: ‘’importante recurso para a construção da identidade (individual ou coletiva), as condutas de oposição podem ser interpretadas também como indício de uma necessidade de autonomia”.


O indivíduo recém saído da adolescência, com conflitos pessoais e psíquicos é o mesmo que integrará os cursos de graduação nas diversas instituições de ensino.
Na formação do educando de ensino superior, é observado a entrada dos iniciantes em qualquer graduação: curiosos, muitas vezes sem a menor noção da estrutura acadêmica que terão de compreender e aceitar. Se encontram em estado de anomia acadêmica. Ele não tem consciência das normas e tenta se adequar.
Este estado se transforma à partir do momento em que os graduandos procuram estabelecer contato com os alunos veteranos, compreendem, então, as regras do jogo, conforme seu grau de envolvimento com o grupo.

As relações coletivas são essenciais para o entrosamento do graduando com as regras da instituição de ensino e o grupo a que pertence. Assim, passa a aceitar e aplicar tais procedimentos devotadamente. A fase heterônoma do indivíduo.

Vygostky, ilustra bem este raciocínio ao se referir as atividades de grupo como fator relevante para o bom desempenho das funções mentais: “O homem é um agregado de relações sociais. As funções mentais são relações sociais internalizadas”.

Enquanto compreende e apreende as regras impostas pelo grupo e pela instituição , ele também elabora e submete suas próprias regras ao grupo. Esta autonomia, o indivíduo a conquista na fase final de sua graduação. Neste momento, o indivíduo se sente mais seguro para reorganizar seu pensamento e reelaborar e reeditar as regras anteriormente propostas.

O papel do docente superior seria o de mediador deste encontro, um facilitador das interações sociais, através de um ensino dialético, que despertasse o auto-questionamento e o questionamento do mundo que o cerca.
Fontes bibliográficas

· GALVÃO. Izabel. Henri Wallon: Uma Concepção Dialética do Desenvolvimento Infantil. Petrópolis, Vozes, 2001.
· PIAGET. Jean O Julgamento Moral na Criança. São Paulo, Ed. Mestre Jou, 1977.
· PIAGET. Jean Estudos Sociológicos. Rio de Janeiro, Ed.Forense, 1977
· TAILLE. OLIVEIRA. DANTAS. Yves de la, Marta Kohl, Heloysa. Piaget, Vygostky e Wallon: Teorias Psicogenéticas em Discussão. São Paulo, Summus editorial, 2003
· VYGOTSKY. Lev Semeniovich. Formação Social da Mente. São Paulo, Martins Fontes, 1998.

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